Nasceste às margens de um Riacho Grande de uma grande fazenda que foi se desdobrando.
Era predestinada a ser uma grande cidade.
Como arraial já tinha até um professor formado.
Ganhaste uma Igreja construída por Antonio Conselheiro,
uma grande Filarmônica, “ A Lira do Apolo”, era nosso orgulho.
Tinhas até um Teatro onde os filhos da terra encenavam peças importantes.
Todo mundo sabia ler, escrever e até fazer sentenças matemáticas.
Quando o aluno terminava o Primário, período de cinco anos,, ele estava habilitado para exercer
qualquer atividade político-social.
Tu tinhas tudo. Das tuas terras os tropeiros traziam à carne, o feijão, a rapadura, o milho, a farinha de mandioca, a banana, o algodão tudo no lombo do burro pra vender no mercado.
Quase nada vinha de fora, até as redes e as cobertas eram fabricadas aqui nos teares.
As costureiras faziam os vestidos e as camisas, os alfaiates faziam os ternos masculinos, até os móveis eram feitos aqui por bons marceneiros com a umburana e outras madeiras típicas da região.
Os mais pobres daqui tinham sua terrinha e viviam dela. Criavam galinha, porco, bode, ovelha e comiam o que plantavam e colhiam.
Dizem que era muito bom.
Fostes crescendo e os teus filhos acharam que devias mudar, evoluir e
tornar-se algo maior que um povoado. Tornar-se um município com sede própria.
Então fizeram-te cidade sede de um município: Chorrochó
Que alegria! Imagino o povo conversando nas calçadas, fazendo versos e canções
pois, Chorrochó era uma Terra de poetas e escritores também.
Quando eu te conheci já tinhas um Grupo Escolar e outra Filarmônica,
a “Santa Terezinha” , era tradição a educação musical em Chorrochó.
Cresci correndo pelas tuas ruas largas, compridas e cheias de alegria.
Brincando de roda, pulando corda, jogando bola, tomando banho de chuva, dançando nas festas animadas pelos sanfoneiros da região até o dia raiar.
E assim fostes crescendo, construíram mais casas foi criado um Ginásio e construíram uma Prefeitura, afinal de contas toda sede de município tem uma prefeitura.
O tempo foi passando a cidade evoluindo e desapareceram tudo.
O desenvolvimento tecnológico substituiu a mão de obra humana pela máquina. Hoje tudo vem das grandes cidades.
Nem as brevidades nem o doce de umbu ninguém acha mais pra comprar.
O sertanejo sem o preparo técnico ficou à margem.
Graças a novas invenções tecnológicas mudaram os costumes, a cultura e a tradição.
“O avanço tecnológico foi o mal necessário para o desenvolvimento”.
Mas, que desenvolvimento é esse que expulsa o povo da sua própria Terra
porque não tem em que trabalhar?
Chorrochó está fazendo 57 anos e nenhum dos seus governantes tentou trazer
uma fábrica, um projeto social de formação profissional através da UNESCO,
ou qualquer outro órgão, que realmente desse condições de formar profissionais
como vemos em outras pequenas cidades.
A Educação vive em constante reforma e o que nós temos hoje são instituições que não
ensinam nem a própria história do município e servem apenas para emitir diplomas sem nenhum conhecimento necessário para a vida.
Afinal de contas o que tens Chorrochó, para oferecer aos teus filhos hoje?
Não temos uma biblioteca, não temos um museu para guardar nossa memória, não
temos um espaço cultural onde possamos criar, fazer ou representar alguma coisa.
Tu nada tens porque careces de tudo. Principalmente de cultura.
És uma cidade de pessoas inteligentes sem opção de vida.
Perdestes tua identidade cultural para ficar, como disse o poeta “Dormindo em tranqüilidade,
na esperança do porvir de heróis de capacidade”.
EU TE AMO CHORROCHÓ!
Dizem que uma pessoa mesmo cansada pode continuar tentando. Eu não.
Eu desisto. Não tenho mais tanto tempo para continuar esperando que
teus governantes apenas troquem as cores e as placas de prédios.
EU DESISTO DE TI!
Neusa Maria Rios Menezes


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